15 Jun

O poder feminino

Habitamos em tempos femininos, o arco está tenso, a flecha foi lançada. A invasão do novo é inevitável, o regresso da mulher estava anunciado. A liberdade é o rio, o leito. O corpo feminino, obstinado lugar sagrado capaz de induzir altos voos, deixa de engolir medos, naufragar princípios e embriagar solidões. Essa neblina chama-se mulher desperta, carregando a espada do seu poder e o escudo da sua sensibilidade, sem mais limites que a sua própria sede de transcendência. É uma vingança, é ocupar o lugar que lhe corresponde, nos escombros do tempo que já foi, e o amanhecer de outro pachacuti, cenário em chamas, renovado, que flui contra a corrente, confinado aos limites marcados pela mais rigorosa liberdade, disposta a retorcer o convencional e decapitar rigidezes e falácias. O retorno do feminino é a consequência do carcomido de uma civilização que precisa de cada vez mais prisões, mais manicômios, mais policias, mais drogas e mais armas para fazer que o insuportável seja suportável.

Janajpacha nasceu para ser uma experiência fundamentalmente feminina, sem paredes nem medos, sem normas, só com princípios e consciência. Não é necessário confinar o vento, nem dar horário à chuva, não é possível encerrar o arco-íris numa caixa, nem adiar o Outono. Húmidas são as bochechas do desespero, nenhuma mulher nasceu para passar a vida a contar cicatrizes num desesperada espera do que não chega. A liberdade é o personagem preferido em Janajpacha, um leque de oportunidades para que a mulher seja ela mesma, mas o melhor dela, delicada e forte, calculadora e espontânea, rigorosa e festiva, protetora e sensual, inocente e atrevida, tudo ao mesmo tempo, como tempestade continuada pelo sol e pelas floras. Isto é Janajpcha, a primeira experiência comunitária de caráter matriarcal. O homem que não confia na mulher, não é de confiança.

Janajpacha é uma zona onde a mulher recupera a sua sensibilidade e o seu poder e os converte num estilo de vida, que no colectivo adquire um a forma de matriarcado, mulheres tomando decisões, mulheres escolhendo, mulheres assumindo a liderança. Obviamente que se tratam de mulheres despertas, mulheres que afloram o seu potencial depois de conhecer-se e reconhecer-se, depois de transformar a ovelha em felino e fazer da rebeldia a planície onde a sua lama insatisfeita acampa indefinitivamente.

O despertar do feminino é a reconexão com a madre terra e a recuperação da força e do poder que isso implica. A mulher, toda a mulher desperta, é terra que caminha, terra que respira, guardiã dos segredos ancestrais que se coroa, cada vez que a reverencia se entrona no coração para que sinta e pressinta, decida e visualize, acenda o fogo y germine a semente, dissolva os antigos medos artificialmente injetados na sua energia e liberada de tudo o que é desnecessário, descartando qualquer mascara, para que palpite sincronizada com o pulsar cósmico. A mulher desperta é uma incessante pedreira de milagres, é uma fonte de intuições, é uma esmagadora presença mágica, profunda, sensual, misteriosa, onda que se move, passa e regressa, que se perde e reaparece, incompreensível, ilegível, perigosa e inocente ao mesmo tempo. Acontece que a mulher desperta é uma monção furiosa, abolição de medos, desmoronamento de preconceitos, viagem acima do proibido.

Pureza é ausência de pudor, virgindade é pertencer-se a si mesma sobre todas as coisas, sem deixar que ninguém a trate como um objeto, nem crucifique a sua liberdade. A beleza é o idioma enigmático que fala o seu corpo para desmantelar a razão, que em vao construiu muros conceptuais de racionalidade rigorosa que colapsaram na sua presença. A mulher desperta é naturalmente inevitável, é inútil fechar a porta para evitar a sua entrada, ela, de antemão, já está dentro. A mulher desperta é o mistério com roupa e a festa dos sentidos, o trilho da impecabilidade e a aprendizagem iniciática dos segredos da vida, onde é possível recordar o que fomos e transitar por toda a largura e comprimento da felicidade silvestre, essa que não depende de circunstancias efêmeras, só de ter desatada a capacidade de saborear o presente com tanta intensidade, que acabamos por sentir a eternidade enquanto o êxtase se assoma no nosso presente, sem vontade de partir.

A mulher desperta precisa de, sem demora, rodear-se de mulheres despertando e com elas, confluir círculos na lua cheia para cantar e dançar, para trocar aprendizagens e deixar que as da sua liberdade se acariciem e contem contos de outras realidades, quando em solos reais visitaram as zonas proibidas pela razão. Um dia escrevi no meu diário uma mensagem urgente para a mulher:

“Esconde debaixo da tua roupa as asas que te brotaram, deixa pegadas falsas, dissimula a tua intensidade existencial e que a dança da tua vida seja parcialmente invisível, para passares despercebida e só deixares pegadas quando seja estritamente necessário. Prepara a tua energia para ocupar a totalidade da tua existência, não importa que a compreensão bata à porta do teu presente, toma precauções, camufla-te e quando seja necessário, mostra o teu rosto autentico e mostra o tamanho da tua liberdade, continua a reconciliar-te com a insegurança e faz o que a tua consciência decida.”

Entregar Janajpacha a uma direção feminina foi como decorar o jardim que estava a cultivar de flores, é fundar uma república feminina do outro lado do mundo, fusionando os segredos da montanha com os cantos da selva, o silencio dos desertos com a altivez do Lago Titicaca, tudo elevado à categoria de inevitável, com a presença de mulheres vestidas com asas, pétalas de luz produzindo musica própria, situados no ponto certo onde a liberdade se encontra com a inocência e descartando o pudor, formando uma rebeldia lúcida, um cenário preciso para que o êxtase transbordante homogeneíze a conjuntura e juntos, impulsionados pela presença feminina. Descubramos que a vida é outra coisa. Janajpacha é o hemisfério onde tudo é possível, incluindo sentir o infinito num instante e a eternidade em cada momento, plenamente vivido.

CHAMALÚ

(Fragmento do livro “Filho da Terra”)

CHAMALÚ é um homem de sabedoria que une o ancestral ao contemporâneo, o sagrado ao mundano, o interno ao externo. CHAMALÚ é um místico hedonista, um filósofo da vida, um sonhador prático, um poeta vivencial, um líder visionário que sonha com um mundo novo e vive em coerência com esse desejo.